Construção

construção

No Canadá, verão é sinônimo de construção

Para encarar o frio aqui no Canadá é necessário, antes de mais nada, muito bom humor. E isso o canadense tem de sobra. Olha só como o pessoal costuma definir as estações:

“Em Montreal há duas estações: INVERNO e JULHO”.

(lembrando que, como estamos no hemisfério norte, junho, julho e agosto seriam os meses do verão)

As quatro estações em Ottawa:

Almost Winter, Winter, Still Winter and Construction”

(Quase Inverno, Inverno, Ainda Inverno e Construção)

Essa última, “construção”, refere-se ao período do “verão”, que é praticamente a única estação em que é possível “construir” aqui no Canadá. Então nessa época parece mesmo que a cidade inteira está em obras, sempre há pequenos detours (desvios) nos trajetos de ônibus por conta de ruas bloqueadas para reformas e há guindastes e equipamentos de construção pesada em toda a parte. Afinal é esse o tempo que eles têm para construir novos prédios e garantir que as estradas resistam ao inverno (e a todo o sal e tratores utilizados para retirar a neve).

Cheguei até mesmo a ficar preocupada: “será que esse pessoal todinho da construção fica o inverno inteiro desempregado?”

Não tenho como afirmar, mas acredito que é justamente esse pessoal quem cuida da operação dos inúmeros tratores de neve em todos os seus tamanhos e formatos, feitos na medida para se adequar de grandes estradas a estreitas calçadas.

Enfim. São tantas as piadas e os comentários sobre o inverno que não dá para escrever tudo em um só post.

Então fiquem ligados que na próxima semana tem mais. 

Tatuagem – Parte II

Camila, a dona da tatuagem (clique na imagem para ampliar)

Camila, a dona da tatuagem

Olá, queridos co-pilotos. Antes de mais nada, queria agradecer todos os comentários e e-mails de apoio e congratulações em relação à tatuagem.

Realmente, acho que todos nós concordamos que a tatuagem de Camila é linda!

“Hein? Como assim? Então a tatuagem não é sua??!!”

Ah, gente! Em nenhum momento eu disse que a tatuagem era minha. Está bem, eu confesso que o modo como me expressei no post anterior pode ter favorecido essa conclusão. Engraçado como as pessoas podem ter diferentes interpretações, não é mesmo?

Mas, convenhamos: quem me conhece bem sabe que eu não tenho coragem sequer para fazer um outro furo bem pequenino na minha orelha, quem dirá então para fazer uma tatuagem?

Brincadeiras à parte, ainda que eu fosse destemida o suficiente para encarar essa aventura, tatuagem não combina muito comigo (daí o espanto de tanta gente) e por mais que uma viagem como essa mude uma pessoa, a nossa essência será sempre a mesma.

Ademais, eu sou doadora de sangue.

E o que isso tem a ver? Bem, digamos apenas que as suas chances de ser liberado para doar após o interrogatório questionário do médico diminuem bastante se você tiver tatuagens, piercings e afins (Falando nisso, tenho um episódio curioso para contar sobre doação de sangue aqui no Canadá, mas isso é assunto para outro post).

Enfim. Acho que, apesar de tudo, valeu mesmo a intenção, afinal não é todo dia que se encontra uma tatoo que, como muitos apontaram, é a minha cara. Também foi interessante para se ter uma idéia de como teriam sido as reações caso a tatuagem fosse minha mesmo (quem sabe um dia?).

O danado é que o objetivo do primeiro post sobre a tatuagem era só de criar expectativa para o “Grand Post” sobre a 1ª Roda de Samba do ano!!! Acontece que o frisson gerado foi tão grande que agora nada que eu comente sobre a festa poderá causar tal impacto.

Então o que eu posso dizer é que a Roda de Samba na OttawaU (Universidade de Ottawa) em 17 de janeiro foi um jeito bem legal de abrir as festas desse ano e que para mim o ponto alto do evento foi quando eles improvisaram Tiro ao Álvaro em minha homenagem, e ainda prometeram que da próxima vez irão ensaiar antes e acrescentar a música ao repertório =)

Seguem algumas fotos do evento:

Isabel (Brasil), Diane (Canadá), eu e Adamira (Nicarágua)

Isabel (Brasil), Diane (Canadá), eu e Adamira (Nicarágua)

Angela (Canadá), Estevão e eu (Brasil) e Fabián (México)

Angela (Canadá), Estevão e eu (Brasil) e Fabián (México)

Pessoal da Roda de Samba

Roda de Samba na OttawaU, 17 de janeiro de 2009

Eles sempre voltam

gansosSe há algo que me fascina aqui no Canadá é a mudança de estações do ano. Parece bobo, eu sei, mas para quem vem de um lugar onde só há duas estações (verão e chuva), em que o sol nasce e se recolhe praticamente no mesmo horário durante todo o ano, poder acompanhar pequenas variações ainda que sutis faz com que os dias não sejam tão iguais assim, como se cada dia reservasse algo de especial.

E o Outono pareceu mesmo conter certa magia, algo de diferente no ar. Os dias gradativamente mais curtos e aquele friozinho que ainda não chegava a incomodar, mas que era suficiente para fazer com que as pessoas desfilassem seus charmosos sobretudos e botas de couro ao longo de calçadas cobertas de folhas alaranjadas.

Ah, as folhas! Dessa estação irei sempre me lembrar do dia em que voltava para casa e uma brisa fez com que diversas folhas em diferentes tonalidades brincassem no ar, a fazer rodopios em minha volta. Pareceu até cena de filme, e quase deu mesmo para ouvir aquele som delicado de pequenos sinos, tocados como que para tornar o momento ainda mais mágico. Como quem caça vaga-lumes, capturei algumas dessas folhas e as levei para casa, onde, em meu quarto, elas trouxeram o brilho do entardecer do outono a muitas noites frias de inverno.

No entanto, nada para mim foi mais marcante do que ver os gansos canadenses rumando para o sul. Todos me contaram sobre o encanto das folhas do Outono, mas ninguém me disse como era belo ver os pássaros migrando. Certa vez, ao descer do ônibus depois de mais um dia de trabalho, ouvi um barulho ao longe, tão impressionante e diferente que até mesmo a mais desinteressada das criaturas não resistiria à curiosidade e ergueria a cabeça ao céu para admirar o espetáculo. Por vários dias que se seguiram, essas majestosas aves migratórias me acompanharam em meu caminho para casa.

"Creio que aproveitou, para evadir-se, pássaros selvagens que emigravam"

"Creio que aproveitou, para evadir-se, pássaros selvagens que emigravam"

Liberdade. É essa sensação por que você é tomado ao ver esses pássaros selvagens no céu. A vontade que dá é de fechar os olhos, sentir a brisa no rosto, abrir os braços… E voar também.

Posso dizer que, nesse ano que passou, eu também alcei meu “vôo da liberdade” em terras distantes, bem longe de casa. E por liberdade eu me refiro à definição de Rubem Alves: “Liberdade é poder fazer aquilo que a gente quer muito, muito mesmo. Um desejo profundo, lá no fundo, coisa doída parecida com saudade”.

Mas a história não acaba aí. A parte que vem a seguir é ainda mais bela e motivo desse post.

Outro dia, conversando com o velho Richard − canadense legítimo que tem a sabedoria de quem já viveu com esquimós − eu comentava sobre a impressão que a migração dos gansos havia me causado, quando, concordando com a cabeça, ele completou:

“Mas, bonito mesmo, é quando eles voltam, trazendo consigo dias mais quentes, anunciando que o verão está chegando e que os dias frios e sem vida estão contados”.

Foi então que me dei conta de que a gente está tão acostumado a ouvir sobre pássaros migrando para o sul que terminamos por esquecer este detalhe:

“Ah, é mesmo! Eles voltam, né?”

Pergunta a qual Richard, em seu jeito simples, respondeu de forma ainda mais reveladora:

“Mais é claro que eles voltam! O que você pensou? Que eles iam ficar lá para sempre? Eles sempre voltam…

 

gansosvoltando

Eles sempre voltam

 

Post scriptum

Dia desses sonhei que estava com minha mãe, ambas a observar admiradas a beleza dos pássaros a migrar, quando eu confidenciei, toda “sabida”, aos seus olhos marejados de lágrimas: “Ah, mãe! Não fica assim. Eles sempre voltam...

Fortune cookies

fortunecookies

Os fortune cookies, ou biscoitos da sorte, são muito comuns no Ocidente, em países como Estados Unidos, Brasil e o próprio Canadá (curiosidade: ao contrário do que se imagina, eles não são utilizados na China).

Normalmente, dentro do biscoito, há uma frase de “incentivo”. Pode ser desde um provérbio chinês a até mesmo uma espécie de “profecia”, que anuncia a tal “boa fortuna” que está por vir. Por isso mesmo, para “dar uma força”, em geral o verso do papelzinho contém “números da sorte”, como dica para jogar na loteria.

Mas você já sabe de tudo isso. Essa introdução toda foi só para dizer que aqui o verso do papel traz a frase em francês em vez de números. Só mais um exemplo de como no Canadá tudo realmente  tem de ser apresentado nos dois idiomas oficiais.

Até que não deixa de ser um jeito de praticar, para quem já arrisca uma frase ou outra fazendo “biquinho”…

Abaixo, a fortuna que eu tirei no biscoitinho de hoje, direto do refeitório da empresa:

“You have the ability to nurture and work creatively with others”.

“Vous savez encadrer et travailler avec les autres”.

Tradução: “Você tem a habilidade de criar e trabalhar criativamente com outros”.