O poço no deserto

Pois é, faz tempo que eu não apareço por aqui. Tenho andado bem ocupada, ainda mais agora que estou organizando tudo para voltar pra casa: Recife, minha terra querida.

Então, embora se dependesse só da minha vontade eu escreveria um post beeeeem longo sobre os últimos acontecimentos e sobre tudo o que eu já fiz nessa minha visita a Toronto, pela falta de tempo resolvi falar apenas de um lugar que eu visitei em Toronto: um cinema.

Bem sei que cinema está longe de ser atração turística, mas é que essa minha visita foi algo assim extraordinário. Especial por eu estar perdida até descobrir que por ali deveria haver um cinema e único por se tratar de um cinema bem old fashion, desses com aquela bilheteria bem antiga, uns 50 lugares na sala e − pasmem − cortina de veludo vermelho na frente da tela que se abre na hora de começar o filme.

Enfim. Foi mais uma coisa bem legal desse dia que eu tirei só para mim. Melhor ainda por ter sido um filme inesperadamente bom, já que eu não tinha lá grandes expectativas em relação a ele.

O nome do filme é Adam e se trata de uma love story entre uma garota aspirante a escritora e um rapaz que tem sérios problemas de convívio social (ele tem uma variante de autismo).

Só sei que o filme me pegou de jeito já na cena de abertura, no primeiro trecho narrado pela garota. Algo como:

My favorite children’s book is about a little prince who came to Earth. When he came from the stars he found a pilot and teached him about love. My dad always said I was his little prince, but after I met Adam I realized I was the pilot all along.

Meu livro infantil favorito é sobre um pequeno príncipe que veio à Terra. Quando ele veio das estrelas, encontrou um piloto e o ensinou sobre o amor. Meu pai sempre disse que eu era o seu pequeno príncipe, mas, depois que eu conheci Adam, descobri que nesse tempo todo na verdade eu era o piloto…

É bem cliché, eu sei, mas, pra mim, só de ter começado fazendo uma analogia tão bonita com o Pequeno Príncipe, o filme já ganhou muitos pontos comigo.

Aliás, acho até que é por isso que essa “visita” ao cinema foi tão especial pra mim. Ela foi como uma passagem do Pequeno Príncipe, em que ele e o piloto estão perdidos no deserto à procura de água:

O que torna belo o deserto é que ele esconde um poço em algum lugar.

E assim o meu passeio pelas ruas de Toronto foi mais bonito, pois eu sabia que algo que eu queria muito se escondia ali em algum lugar…

Assim que der publico umas fotos. Por enquanto, aqui está o trailer (não encontrei legendado):

Festival de Tulipas – Parte I

Tulip Festival, 15 de maio de 2009.

Tulip Festival, 15 de maio de 2009.

O evento por que Ottawa é mais conhecida é o Tulip Festival, considerado o maior Festival de Tulipas do mundo. Ele ocorre anualmente desde 1953 e atrai uma média de meio milhão de turistas a cada ano.

O festival acontece todo mês de maio (pois é, o post está um pouquinho atrasado), que é o mês da primavera aqui no Canadá (em abril ainda é inverno). Nesse ano o festival ocorreu de 1 a 18 de maio, com o seu encerramento no Victoria Day, feriado nacional canadense em homenagem à rainha Vitória (séc. XIX). Lembrando que o Canadá, assim como a Austrália e a Jamaica, são países atualmente reinados pela rainha Elizabeth II da Inglaterra.

As tulipas

As tulipas

Enfim. A principal mudança dessa edição foi a descentralização: o festival foi espalhado por diversas partes da cidade, cada uma com um tipo de atração diferente. Na região do lago Dow’s Lake, era possível ver a maior concentração de tulipas, enquanto que o Pavilhão Internacional foi montado no Glebe, com stands e performances de vários países. Já o Major Hill, parque do centro da cidade, contou com uma escola de circo.

Tapioca preparada pelo stand brasileiro no Festival das Tulipas.

Tapioca preparada pelo stand brasileiro no Festival das Tulipas.

No stand brasileiro tinha guaraná, pão de queijo, feijoada e até tapioca. O Brasil ainda foi muito bem representado por apresentações de dança e shows de samba e mpb, dos quais postarei alguns vídeos em breve.

Quanto às tulipas, essas personificaram a marca registrada do Canadá: a diversidade.  As suas cores e formas variadas deram vida e encanto a um festival que por si só já é repleto de magia, com os seus parques, rodas gigantes, carrosséis e muito mais.

Deixo vocês com algumas imagens desse belo festival.

 

Clique na imagem para ver as fotos.

Clique na imagem para ver as fotos.

My name ain’t Johnny

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Não sou muito aficionada pelo Cinema Nacional, mas, como já comentei em outros posts, quando se está morando fora é como se você fosse acometido por um orgulho que o faz querer prestigiar o Brasil em todas as oportunidades.

E não poderia ser diferente com o 13th Latin American Film Festival aqui em Ottawa, promovido pelo Canadian Film Institute.

O domingo foi dedicado ao Brasil, com reprodução de duas películas:

Jogo de Cena (Playing): documentário que “conversa” com a ficção e 
Meu nome não é Johnny (My name ain’t Johnny): filme de ficção baseado em fatos.

jogo-de-cenaMuito interessante a idéia da Embaixada Brasileira em disponibilizar filmes que “brincam” um pouco com as duas linguagens: documentário e ficção. O primeiro, Jogo de Cena (assista ao trailer), dirigido por Eduardo Coutinho, documentarista brasileiro de renome internacional, foi o que mais me tocou, particularmente a história da senhora que perdeu o filho em um assalto. Também dei muitas risadas nervosas ao ouvir este comentário de uma garota ingênua e analfabeta, que me fez refletir sobre o quanto a educação é importante e o quão crítica está a situação de nosso país nesse aspecto:

“Eu pensei que para engravidar era preciso ‘fazer’ muitas vezes, que uma ‘rapidinha’ não contava. Tive até medo que minha filha nascesse com algum problema, tipo ‘faltando alguma coisa’, por ter sido só uma vez e tão rápido. É por isso que eu parei definitivamente de ‘fazer’: se só com uma ‘rapidinha’ eu já tive uma menina, imagina ‘o que é que não vai sair’ se eu fizer muitas vezes?!”.

Ele tinha tudo, menos limite.

Ele tinha tudo, menos limite.

Acho que Jogo de Cena impressionou pela originalidade. Já o “Johnny” chamou a atenção dos mais velhos pelo fato de um garoto que tinha tudo e todo o carinho dos pais ter se envolvido a tal ponto no mundo das drogas sem que os mesmos sequer desconfiassem. Como a própria tagline do filme diz:

He could be your son’s best friend. He could be dating your daughter. He is the sweetest drug dealer… and he is real.

(Ele poderia ser o melhor amigo do seu filho. Poderia estar namorando a sua filha. Ele é o mais “doce” dos traficantes… e ele é real).

Para a exibição de Meu nome não é Johnny (trailer), sucesso de público do ano passado, o auditório da Libray and Archives Canada (Biblioteca do Arquivo Nacional) estava praticamente lotado e, de modo impressionante, quase não havia brasileiro. A maior parte do público era formada por latinos e pessoas da região francesa do Canadá, com a qual Ottawa faz fronteira.

É que se tratou de um evento “importante”, que contou com a presença do Embaixador do Brasil e sua família em ambos os filmes, bem como de embaixadores de outros países da América Latina e até mesmo da Mongólia. Foi a segunda vez que vi o Embaixador do Brasil (a primeira eu contei aqui).  

Após a exibição dos filmes, a noite do evento foi encerrada com Wine and Cheese (Queijos e Vinhos). Melhor pra mim, pois, depois de muito, muito tempo, pude comer coxinha, pão de queijo e empadinha à vontade.

Diferente a experiência de assistir a filmes falados em português com legenda em inglês, em sessões em que as pessoas ficam de pé e batem palmas ao final das exibições. Acho que esse é o próprio conceito de um Festival de Cinema. Afinal, se o cinema é considerado a “sétima arte”, por que não aplaudir um trabalho de qualidade?

Para aprender, sentir e lembrar

Homem "desenterrando" o carro coberto de neve. Montreal, Segunda-feira, 22 de dezembro de 2008.

Homem "desenterrando" o carro coberto de neve. Montreal, Segunda-feira, 22 de dezembro de 2008.

Hoje eu posso dizer que senti calafrios, e não por conta dos 40 centímetros de neve na rua ou pela sensação térmica de 20 graus negativos. O arrepio que senti correr pela espinha foi um misto de medo, horror e consternação. Mas não hás de ficar preocupado, querido co-piloto. Afinal, é de se esperar que uma visita ao Museu do Holocausto cause esse tipo de impacto.

Acontece que Montreal abriga a 3ª maior população de judeus sobreviventes do holocausto no mundo, algo entre 5 a 8 mil.

(Para os curiosos, dei uma olhada por alto no Google e, logicamente, a maior população está em Israel. Os EUA vêm logo em seguida, Califórnia me parece. Não consegui dados concretos).

Museu do Holocausto, Montreal.

Museu do Holocausto, Montreal.

Logo na entrada, o objetivo do museu é destacado em Hebraico, Yiddish, Francês e Inglês: Para aprender, sentir e lembrar (Na foto é possível ver o letreiro luminoso em Inglês: To learn, to feel, to remember).

Durante a visita você faz uma viagem no tempo, desde uma apresentação sobre a tradição e cultura judaica, passando pela repressão aos judeus (não só na Alemanha como também no próprio Canadá e no resto do mundo), Tratado de Versalhes, crescimento do nazismo, início da guerra, campos de concentração/extermínio, tentativa de readaptação ao antigo lar e, finalmente, migração para o Canadá e outros países. Tudo isso pontuado com fotos, vídeos e jornais da época, além de artefatos, lembranças e em especial depoimentos dos sobreviventes.

 

Propaganda Nazista. Detalhe para o pôster que consegue simultaneamente denegrir a imagem do negro e o jazz (macaco com saxofone) e o judeu (estrela na lapela).

Propaganda Nazista. Detalhe para o pôster que consegue simultaneamente denegrir a imagem do negro e o jazz (macaco com saxofone) e o judeu (estrela na lapela).

E é nesse ponto que a visita deixa de ser uma “aula” e faz com que você realmente “vivencie” a história (o tal do “sentir” do mote do museu). Logo no primeiro “ambiente”, você assiste em um monitor (em que você seleciona legendas em inglês ou francês) ao testemunho de sobreviventes de diferentes países e classes sociais, de famílias mais ou menos ligadas à religião e à tradição judaica, bem como mais ou menos integradas aos “gentis” (como os que estudavam em escolas “mistas” e os que estudavam em escolas “para judeus”) falarem de como era o seu dia-a-dia (lembrando que a maioria dos sobreviventes era muito jovem na época. Eles eram os “filhos”).

À medida em que você “avança” pelos corredores, você passa também a reconhecer esses mesmos sobreviventes (e alguns novos) em outros monitores, e a acompanhar toda a sua trajetória (das casas para os guetos e desses para os campos), até as pequenas alegrias e tristezas do pós-guerra (os parentes reencontrados e perdidos, a difícil readaptação à VIDA, os pesadelos que os perseguem até hoje).

E é esse que eu considero o grande diferencial do Museu. Do mesmo modo que nos identificamos quando lemos “O Diário de Anne Frank” e “A mala de Hanna”, é inevitável nos sentirmos também mais próximos dos sobreviventes ao ouvi-los descrever o cotidiano no gueto e seu contraste entre a indiferença aos mortos na calçada (como mecanismo de defesa) e a celebração da vida, com sua efervecência cultural de peças e sinfônicas que alimentavam a alma dos que padeciam de fome e com os casamentos daqueles esperançosos de dias melhores.

 

Detalhe para o um dos jogos de tabuleiros mais comuns da época, "preferido" não apenas das crianças como também dos pais dedicados a passar mais tempo com os filhos. Desenvolvido por nazistas, o objetivo do jogo é expulsar os judeus da Alemanha.ra

Detalhe para o um dos jogos de tabuleiros mais comuns da época, "preferido" não apenas das crianças como também dos pais dedicados a passar mais tempo com os filhos. Desenvolvido por nazistas, o objetivo do jogo é expulsar os judeus da Alemanha.ra

O Museu também foi muito bem planejado, até mesmo em sua ambientação. Os bancos, por exemplo, vão “evoluindo” de alcochoados a madeira e, por fim, concreto, à medida em que “passamos” por casas, guetos e campos de extermínio.

 

O Museu traz ainda “bons” exemplos dos artifícios de que os nazistas se utilizaram para nutrir o ódio aos judeus e a outros grupos minoritários perante a população (comunistas, ciganos, homossexuais, negros). Para mim. particularmente, esse é um dos fatos mais imcompreensíveis e assustadores: como toda uma nação pôde ser convencida a odiar tão cegamente um povo? E é de “tirar o sono” a idéia de que isso possa se repetir, em qualquer parte do mundo, contra qualquer outra minoria (se é que, guardadas as devidas proporções, já não está se repetindo). Por isso é importante “lembrarmos”, para não permitirmos que isso volte a acontecer.

Enfim. Sei que em meu blog não costumo me enveredar por essas “trilhas”, mas co-piloto é assim mesmo, acompanha cada passo da “aventura”. Encerro então com a última frase (divertidíssima) pronunciada nos depoimentos (só lembrando que esse comentário veio de uma senhora que sobreviveu à fome e a toda uma sorte de infortúnios em um campo de concentração):

“E eu consegui me adaptar ao inverno do Canadá”. 

 

O Circo do Sol

Cirque du SoleilE hoje, meus queridos co-pilotos, eu posso dizer que fui ao melhor circo de todos os tempos, o Cirque du Soleil.

E com estilo, diga-se de passagem, uma vez que assisti ao espetáculo “em casa”, ou melhor, do lugar onde o circo “nasceu”, o Canadá (mais precisamente o circo vem de Montreal, daí o nome em francês). E assim eu pude finalmente curtir de fato o que a cultura canadense tem de melhor a oferecer.

Eu, Thiago (Brasil) e Simone (Vancouver, Canadá)

Eu, Thiago (Brasil) e Simone (Vancouver, Canadá)

Palco do espetáculo (clique para ampliar)

Palco do espetáculo (clique para ampliar)

E, para melhorar o que já estava bom, como fomos no último dia do espetáculo, a hostess transferiu a gente (grupo de 8 pessoas) para uma seção bem pertinho do palco (a qual os lugares eram vendidos pela “bagatela” de 100 dólares). Isso que a gente já havia pago somente 30 dólares, metade do valor normal (contatos, meus amigos, contatos). Se ainda está achando caro, vale lembrar que a média do ingresso quando o circo esteve em SP era de 300 reais. Mas voltemos ao assunto.

CorteoCom o espetáculo Corteo (cortejo), o Circo do Sol vem nos mostrar porque carrega esse nome. Afinal, “Alegria” não é apenas o nome de uma de suas inúmeras exibições mundo afora, mas sim a natureza do próprio circo. Só mesmo um circo de tamanha capacidade artística e criativa para conseguir fazer de um cortejo fúnebre uma verdadeira festa, repleta de encanto e magia.

Mas afinal, o que esse circo tem de tão especial? Em relação ao apuro técnico, não há nada que “salte aos olhos”, que não possa ser visto em qualquer outro circo de qualidade, como o Circo Imperial da China. O que impressiona é a forma como ele consegue mexer com o lado lúdico e fazer algo simples se tornar incrivelmente belo.

Para começar, o espetáculo sempre gira em torno de uma história que, no caso, é a de um funeral. Logo na abertura, o “moribundo” se apresenta, explicando que em seu “momento final” ele se lembrou de sua vida e recordou a sua infância. E assim a apresentação segue, mostrando cenas de sua juventude e meninice, intercaladas pelo cortejo em si e até mesmo o momento em que os anjos vão “buscá-lo”.

Clique para ver o número da cama elástica

Clique para ver o número da cama elástica

Um exemplo de como esse circo consegue transformar um “número batido” em algo mágico: o ato das acrobacias em uma cama elástica (bouncing beds act) que, nessa cena (ao lado), teve o nome tomado ao pé da letra. E quem aqui nunca brincou de “pular na cama” e de “guerra de travesseiros” quando criança? (alguns brincam até hoje). É aí que está o segredo: por meio desses pequenos gestos, o circo consegue a identificação com o público, que se emociona.

E é buscando a emoção que todos os seus esforços se voltam para o lado artístico, teatral. Não seria um completo exagero pensar que o Cirque du Soleil é na verdade um teatro em que os artistas têm habilidades circenses. Os cenários, o figurino (século XIX), a música (cantada pelos próprios artistas ao vivo), a dança, tudo conspira para algo grandioso, quase que como se estivéssemos na realidade em uma ópera.

Enfim. Valeu a pena. Voltei para casa de alma lavada, não só pela chuva, que nos pegou desprevinidos, mas pela sensação de leveza, de ter assistido a um espetáculo ao mesmo tempo delicado e vibrante.

Finalizo o post com o vídeo de um dos números mais engraçados, com balões de hélio, em uma demonstração da interação entre artistas e platéia. Para nós, brasileiros, é difícil não lembrar um caso curioso do início do ano. Mas não se preocupem, dessa vez não precisou nem de celular nem de GPS, o próprio público ajudou a nossa personagem a voltar para “casa”.

(Ao longo do post eu deixei o link para vários trechos do espetáculo. Na seção de vídeos relacionados do YouTube você encontra ainda muitos outros. Não é o mesmo que ver ao vivo, mas já dá para “fazer de conta”).