Amazing Grace

Quando você embarca em uma viagem como essa, são incontáveis as expectativas. Afinal, você irá conhecer lugares e pessoas diferentes, “aprender a se virar sozinho” e viver experiências incríveis. Vem à mente algo como “ver a neve”, patinar no gelo e diversas idas a museus, shows, teatros…

No entanto, eu acho que o que marca mesmo em uma viagem são as situações inesperadas, daquelas que nem o mais experiente dos viajantes poderia prever em seu check-list. Eu já esperava ter várias histórias para contar sobre “estar perdida no meio da cidade” ou sobre as minhas inúmeras “quedas no gelo”, mas nunca imaginei vivenciar metade das experiências por que de fato estou passando.

Hoje, pela primeira vez em minha vida, eu fui a um enterro.

Mas não hás de ficar triste, querido co-piloto. Esse post não tem essa intenção. Acho importante aprendermos com nossas experiências, bem como as compartilharmos. Por isso, decidi escrever também sobre essa situação que, apesar das circunstâncias, não deixa de ser um modo de aprender um pouco mais sobre esse país e sua cultura.

Segue então o meu relato sobre essa experiência.

A mãe de uma colega de trabalho que é bastante próxima faleceu e todos nós fomos ao velório e ao enterro que, no Canadá, costuma acontecer uns 5 dias após o falecimento (não há missa de 7º dia geralmente). Hoje a “escolha” mais comum é a cremação, até porque é a opção de menor custo (e, como vocês verão mais adiante, além disso há certas questões práticas, por assim dizer). As pessoas mais idosas ainda têm um pouco de resistência a esse “método” e há também aspectos religiosos envolvidos. No “caso” em questão houve um “enterro tradicional”.

No velório, o caixão estava fechado. Em todo caso, normalmente o corpo é embalsamado. Havia flores, cartões, fotos e outros objetos que lembravam a pessoa falecida. O culto foi celebrado na própria casa funerária. Devido ao imenso número de religiões no Canadá (tanto cristãs quanto não-cristãs), algumas famílias preferem proceder dessa forma, com uma espécie de “culto ecumênico” em vez do deslocamento para um templo de determinada religião.

O curioso da cerimônia é que o pastor parecia um Rock Star (opinião compartilhada por outras pessoas). Ele tinha “cabelo espetado” (spike hair em inglês), embora estivesse com a tradicional vestimenta preta. Assim que chegou ao altar, o pastor pegou um violão, pendurou-o no pescoço e começou a cantar um dos cânticos do livreto, I come to the garden alone. Não por acaso, Elvis Presley imortalizou essa música (clique para ouvir). A voz do pastor era mesmo muito bonita e contribuiu para o clima pretendido de “celebração da vida” do ente querido em oposição à pura lamentação de sua morte.

É de chamar a atenção como no Canadá há que sempre se considerar a diversidade. O pastor falou algo como “Ainda que Lhe demos nomes diferentes, o Senhor é o mesmo Deus para todos”.

O discurso feito pela minha colega de trabalho em homenagem à sua mãe foi muito tocante. Nele, ela citou a música favorita da mãe, a qual reproduzo trecho da letra:

We’ll meet again [Nós nos encontraremos de novo]
Don’t know where
[Não sei onde]
Don’t know when
[Não sei quando]
But I know
[Mas eu sei]
We’ll meet again
[Nós nos encontraremos de novo]
Some sunny day
[Em algum dia ensolarado]

Clique para ver o resto da letra

Procurei na Internet e vi que, além da versão mais conhecida, de Vera Lynn, a também britânica Julie Andrews gravou a música em um especial de TV. A música tornou-se um marco durante e após a 2ª Guerra Mundial, uma vez que os soldados e as suas famílias não sabiam ao certo se os mesmos retornariam, como muitos de fato não retornaram.

Coincidentemente, a música de encerramento da cerimônia, talvez a música gospel mais famosa no mundo (depois de Oh Happy Day), também foi marcante durante uma guerra. Amazing Grace, também interpretada por Elvis Presley entre tantos outros, foi uma espécie de hino para ambos os lados da Guerra Civil dos EUA, no final do século XVIII, embora tenha sido escrita por um britânico.

O funeral aconteceu em um dia bastante ensolarado (afinal é primavera), embora estivesse muito frio, mais ou menos 15 graus negativos (afinal é Canadá). Ao menos quase toda a neve já havia derretido. Perguntei a uma colega como era o “procedimento” durante o inverno, uma vez que está tudo coberto de neve. Ela explicou que nesses casos o corpo é mantido em uma cripta até que possa ser enterrado (o que pode demorar meses). Como eu disse anteriormente, é mais um motivo para a cremação ser preferência da maioria.

Após o enterro no cemitério, voltamos à funerária para aquela parte em que vários pratos são servidos e as pessoas conversam animadamente (algo meio que difícil de entender, mas que é semelhante em qualquer lugar do mundo).

Enfim. Acredito que tudo que eu descrevi é bem próximo do que acontece no Brasil, mas no Canadá esse rito pode ser realizado de diversas formas, especialmente se você considerar o número de imigrantes orientais, que de um modo geral têm uma visão diferente da cristã ocidental.

Para fechar, deixo o comentário que ouvi quando uma situação cômica ocorreu durante a cerimônia, dessas com alguém um tanto quanto desajeitado ou desastrado, em que ninguém conseguiu segurar o riso:

“One laugh at the strangest moments…” (As pessoas riem nos momentos mais estranhos)

 

 

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