O ano em que morei no Canadá

Oi pessoal!

Muito tempo sem postar aqui no blog. A verdade é que eu voltei para a minha terra e agora já não faz tanto sentido continuar a postar por aqui.

Por outro lado, são tantas lembranças, tanto que ainda tenho a dizer, que não consigo me desvincular desse blog ainda.

Segue um vídeo que eu fiz para o pessoal que ficou por lá, para matar um pouco as saudades.

Toda vez que eu vejo o vídeo, penso em mil coisas e pessoas que ficaram de fora, mas acho que dá para se ter uma boa idéia de como foi essa minha experiência no Canadá.

O ano em que morei no Canadá

Clique na imagem para acessar o vídeo

Esse outro, abaixo, é um vídeo que eu fiz sobre o Brasil, para os gringos ficarem babando!

Espero que gostem!

É Primavera – Parte III

Foto tirada no Festival de Tulipas de Ottawa, em maio de 2009.

Foto tirada no Festival de Tulipas de Ottawa, em maio de 2009.

Quero apenas cinco coisas…
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser… sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.

Pablo Neruda

Um Feliz Dia dos Namorados para todos aqueles que têm a alegria de ter o seu amor bem juntinho de você, ao seu lado.

Post rápido

Como ando sumida já faz um tempo, seguem alguns comentários rápidos, cada um com potencial de ter um post próprio:

  • Feijoada no Canadá faz bem pra pele, pra o colesterol e para a saudade;
  • Já a música brasileira ao vivo tem o poder de fazer o tempo melhorar e parar de chover, só pra o mais acanhado sair de debaixo da tenda e ir para perto do palco;
  • O Tai Chi em grupo, por sua vez, faz sinos tocarem (ao menos se o grupo estiver na frente do Parlamento “Big Ben” de Ottawa);
  • Em compensação, uma brasileira ensinando matemática em inglês (fração e porcentagens) faz uma criança ficar ainda mais confusa do que já estava antes;
  • Ao menos existe o Garage Sale Anual que, além de fazer muitos calos, faz também a alegria de milhares de pessoas que acordam cedo em pleno sábado para conferir todos os cacarecos.

E… at last but not least (por último mas não menos importante)…

Bicicleta vermelha e enferrujada – $ 40 dólares
Passear ao longo do rio em companhia de esquilos e adultos e crianças sorridentes, felizes só pelo fato de “fazer um dia bonito lá fora” – não tem preço

 

É isso. Espero que tenham gostado.

Eles sempre voltam

gansosSe há algo que me fascina aqui no Canadá é a mudança de estações do ano. Parece bobo, eu sei, mas para quem vem de um lugar onde só há duas estações (verão e chuva), em que o sol nasce e se recolhe praticamente no mesmo horário durante todo o ano, poder acompanhar pequenas variações ainda que sutis faz com que os dias não sejam tão iguais assim, como se cada dia reservasse algo de especial.

E o Outono pareceu mesmo conter certa magia, algo de diferente no ar. Os dias gradativamente mais curtos e aquele friozinho que ainda não chegava a incomodar, mas que era suficiente para fazer com que as pessoas desfilassem seus charmosos sobretudos e botas de couro ao longo de calçadas cobertas de folhas alaranjadas.

Ah, as folhas! Dessa estação irei sempre me lembrar do dia em que voltava para casa e uma brisa fez com que diversas folhas em diferentes tonalidades brincassem no ar, a fazer rodopios em minha volta. Pareceu até cena de filme, e quase deu mesmo para ouvir aquele som delicado de pequenos sinos, tocados como que para tornar o momento ainda mais mágico. Como quem caça vaga-lumes, capturei algumas dessas folhas e as levei para casa, onde, em meu quarto, elas trouxeram o brilho do entardecer do outono a muitas noites frias de inverno.

No entanto, nada para mim foi mais marcante do que ver os gansos canadenses rumando para o sul. Todos me contaram sobre o encanto das folhas do Outono, mas ninguém me disse como era belo ver os pássaros migrando. Certa vez, ao descer do ônibus depois de mais um dia de trabalho, ouvi um barulho ao longe, tão impressionante e diferente que até mesmo a mais desinteressada das criaturas não resistiria à curiosidade e ergueria a cabeça ao céu para admirar o espetáculo. Por vários dias que se seguiram, essas majestosas aves migratórias me acompanharam em meu caminho para casa.

"Creio que aproveitou, para evadir-se, pássaros selvagens que emigravam"

"Creio que aproveitou, para evadir-se, pássaros selvagens que emigravam"

Liberdade. É essa sensação por que você é tomado ao ver esses pássaros selvagens no céu. A vontade que dá é de fechar os olhos, sentir a brisa no rosto, abrir os braços… E voar também.

Posso dizer que, nesse ano que passou, eu também alcei meu “vôo da liberdade” em terras distantes, bem longe de casa. E por liberdade eu me refiro à definição de Rubem Alves: “Liberdade é poder fazer aquilo que a gente quer muito, muito mesmo. Um desejo profundo, lá no fundo, coisa doída parecida com saudade”.

Mas a história não acaba aí. A parte que vem a seguir é ainda mais bela e motivo desse post.

Outro dia, conversando com o velho Richard − canadense legítimo que tem a sabedoria de quem já viveu com esquimós − eu comentava sobre a impressão que a migração dos gansos havia me causado, quando, concordando com a cabeça, ele completou:

“Mas, bonito mesmo, é quando eles voltam, trazendo consigo dias mais quentes, anunciando que o verão está chegando e que os dias frios e sem vida estão contados”.

Foi então que me dei conta de que a gente está tão acostumado a ouvir sobre pássaros migrando para o sul que terminamos por esquecer este detalhe:

“Ah, é mesmo! Eles voltam, né?”

Pergunta a qual Richard, em seu jeito simples, respondeu de forma ainda mais reveladora:

“Mais é claro que eles voltam! O que você pensou? Que eles iam ficar lá para sempre? Eles sempre voltam…

 

gansosvoltando

Eles sempre voltam

 

Post scriptum

Dia desses sonhei que estava com minha mãe, ambas a observar admiradas a beleza dos pássaros a migrar, quando eu confidenciei, toda “sabida”, aos seus olhos marejados de lágrimas: “Ah, mãe! Não fica assim. Eles sempre voltam...

Um adeus bem verde e amarelo

Olha, depois de 3 meses morando aqui, eu posso dizer que já tinha até passado por situações que me fizeram lembrar do Brasil ou mesmo pensar que é possível sim trazer um pouco do Brasil para o Canadá, mas nada como a festa de ontem… Ontem eu senti que estava de verdade no Brasil!

Para começar, ao chegarmos à casa (que pela distância já fez a gente pensar que estava mesmo viajando), logo de cara nos demos com o quê? Uma platéia vidrada n’A Favorita! (Sobre isso, só um comentário: até cachorro tão matando nessa novela??!!)

As noveleiras

As noveleiras

Adentrando um pouco mais pela casa, via-se um grupo comendo aquele bom prato de feijão com arroz e, para minha surpresa, macaxeira (isso mesmo!). E, como não podia faltar, tinha também aquele pessoal bebendo uma cervejinha e curtindo um bom samba.

Tratava-se da festa de despedida de uma amiga nossa, a Marina, que está voltando para o Brasil.

Adamira (Nicarágua), Diane (Canadá) e Marina (Brasil)

Adamira (Nicarágua), Diane (Canadá) e Marina (Brasil)

Para completar o “cardápio”, nós (Adamira, Diane, Thiago e eu) trouxemos brigadeiros e beijinhos. E olha que, não é querendo assim me gabar muito não, mas meu brigadeiro faz sucesso até entre os brasileiros (porque “impressionar” os canadenses é fácil, uma vez que eles não conhecem nenhum docinho brasileiro).

Fanny, Adamira, Diane e eu

Fanny, Adamira, Diane e eu

Agora, o mais incrível mesmo foi o churrasco. “Quê? Churrasco na ‘terra do hambúrguer’ e nesse frio?”

Pois não é que colocaram uma churrasqueira lá fora no meio da neve? (dessas que tem tampa, claro)

E era um churrasco de verdade! Claro que eu não podia deixar de registrar, ainda mais para os céticos que não acreditam que isso seja possível.

Hum... que delicia

Hum... que delícia

Picanha com farofa, é mole?

Picanha com farofa, é mole?

Lógico que quis logo saber o segredo dessa façanha e, pasmem: vem tudo pelo correio!!! (na verdade quanto à picanha eu não posso afirmar, mas a “Farofa pronta” Yoki essa eu garanto que veio direto do Brasil)

Ainda consegui umas dicas de churrascarias brasileiras em Montreal (onde eu vou passar o próximo final de semana e o Natal) e também me garantiram que lá eu encontro leite moça.

E, para fechar a noite com chave de ouro, um show “particular” de Rômmel Ribeiro. Ele é uma das grandes atrações brasileiras na “cena cultural” de Ottawa/Montreal. No repertório, Música Popular Brasileira. Vale a pena conferir.

Rômmel (Maranhão), Paulinho (Pernambuco) e... guitarrista da banda =P

Rômmel (Maranhão), Paulinho (Pernambuco) e... guitarrista da banda =P

Enfim. Passei o dia hoje com um sorriso de uma orelha à outra só me lembrando da festa com toda aquela animação e do meu Brasil querido =)

Mais fotos no meu Facebook.

 

Festa em Barhaven, Ottawa/ON, Canadá, em 6 de dezembro de 2008.

E viva a independência!

National Gallery of Canada

National Gallery of Canada

Calma, gente! Não é que eu esteja “curtindo a vida e minha recém-adquirida ‘liberdade’ adoidado”.

É que hoje, depois de pouco mais de duas semanas um tanto quanto conturbadas aqui no Canadá, pude comemorar o nosso “Dia da Independência” de um jeito bem brasileiro: em uma festa gratuita patrocinada pela Embaixada Brasileira na National Gallery, com direito a Roda de Samba e tudo! Chique no último!

O lugar é lindo, uma das construções mais belas de Ottawa. Foi realmente incrível a oportunidade de assistir ao pôr-do-sol de “camarote”, através das paredes e tetos de vidro, por volta das 8 da noite (Ah, o verão! Pena estar acabando…). Foi aquele toque especial a uma festa que já estava bem bonita.

A celebração contou também com discurso do Embaixador do Brasil no Canadá, mais um bocado de brasileiros saudosos bastante emocionados ao cantar o hino do Brasil e meio que desajeitados tentando acompanhar o pouco conhecido hino da Independência (esse me lembrou dos tempos de colégio e suas apresentações do “coral”).

 

Festa da independência. Segunda-feira, 8 de setembro de 2008 (um dia depois do feriado), na National Gallery. Na foto, o Embaixador e a Roda de Samba.

Festa da independência. Segunda-feira, 8 de setembro de 2008 (um dia depois do feriado), na National Gallery. Na foto, o Embaixador e a Roda de Samba.

E eu, que atualmente estou “morando” em um hotel (é só por uma semana), tive a alegria de me sentir “em casa” ao ouvir tantas pessoas falando a minha língua e cantando e dançando tão felizes ao som de uma não menos animada roda de samba.

Eu já ouvi dizer que “no começo tudo são flores”, na mesma proporção em que me alertaram que os primeiros meses seriam os mais difíceis, por conta de toda essa “fase de adaptação”. Acho que cada caso é um caso. É mesmo muito diferente a visão de um turista ou estudante que vem para passar apenas algumas semanas ou meses e a de alguém que vem para trabalhar por um ano inteiro.

As preocupações são outras. No momento, luto para encontrar um lugar para morar e para entender o sem número de jargões e siglas utilizados no projeto de RH da empresa em que trabalho (post sobre essa inacreditável experiência ainda por vir). E ainda tem a saudade… Da família, dos amigos, do namorado, do “feijão com arroz” (ou de “comida de verdade” de um modo geral) e mais de um monte de coisas para as quais nunca dei muita atenção.

E por isso essa festa teve um significado ainda maior para mim. A maioria do pessoal já vive no Canadá há bastante tempo. Legal saber que todos já passaram por situação parecida e ver que hoje “estão todos bem”, mais que adaptados, aproveitando cada momento dessa aventura que é viver em um país tão diferente do seu.

Sei que fui apresentada a um montão de gente que, espero, vou ter um tanto mais de festas para ser devidamente “reapresentada”… e enfim poder lembrar o nome!

E viva a independência!

Hum... Menino de paletó, Mauricio, Isabel, Daniel, "duas meninas de preto" e Thiago (todos que eu disse o nome brasileiros). Ah! E eu de azul (e brinco do Brasil da "Feirinha de Boa Viagem"). Clique na imagem para ampliar.

Da esquerda para direita: Hum... "menino de paletó", Maurício, Isabel, Daniel, "duas meninas de preto" e Thiago (todos que eu disse o nome brasileiros). Ah! E eu de azul (e brinco do Brasil da "Feirinha de Boa Viagem"). Clique na imagem para ampliar.

E essa dor no peito?

E mal completou uma semana de “aventuras no Canadá” e já tive de ir ao médico.

Nada sério. Repentinamente, o calor dos primeiros dias (32º C) deu lugar a dias mais amenos e a noites um tanto quanto “geladas”. Meu organismo finalmente sentiu o peso das 10 “pressurizadas” horas de vôo, mais a diferença de clima e ambiente (muito seco) e sucumbiu a um resfriado.

Primeiro resfriado longe de casa. Começou “bobo”, mas acho que depois ficou bem “sabido”, porque evoluiu para uma tosse incessante acompanhada de uma crescente dor no peito.

Veio também pela primeira vez o peso da responsabilidade e certa solidão por estar “on my own” (por minha conta). Passei de olhos fechados o vick vaporub no peito imaginando ser minha mãe quem o passava e a seguir me cobria para eu dormir bem aquecida.

Enquanto isso, a alguns milhares de quilômetros, um pai e uma mãe mal conseguiam dormir tamanha a preocupação com a possibilidade de a filha estar com uma “pneumonia”. Superproteção ou não, a súplica de “por favor vá a um médico” atravessou o continente chegando ao outro hemisfério já como uma ordem, a ser cumprida de imediato.

No consultório “em casa” do “médico da família” (como eles chamam “clínico geral” por aqui), alguns casais de “vovôs e vovós” que pacientemente aguardavam a vez me fizeram companhia. Já na consulta, o médico, bastante compreensivo, assegurou que eu não tinha nada no pulmão e que “era apenas um resfriado”.

Sobre o “frio” que eu estava sentindo, ele explicou ainda que isso também aconteceu com ele, quando veio do Egito há mais de 20 anos, mas que isso era comum e que com o tempo todo mundo se acostuma. Era só uma fase de aclimatização. Ele mesmo estava atualmente dormindo com ar-condicionado.

Já quanto a “dor no peito”, ele só me perguntou uma coisa:

“Há quanto tempo você está no Canadá?”
“Uma semana”.
“Ahhh…” – como quem diz, “então é isso…”

E não disse mais nada.

Acho que é a isso que chamam “homesick”.

(Se “home” significa lar e “sick”, doente, poderia eu dizer que estava “doente de saudades de casa”?)