Um lápis

Foto: Getty images
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Outro dia estava conversando com minha mãe pelo Skype. Como é comum entre a gente, ao mesmo tempo em que nos falávamos eu estava distraída vendo alguma coisa no meu computador e ela estava trabalhando no dela, fazendo relatórios.

A gente gosta de conversar desse jeito porque assim parece até que eu estou com ela, lá em casa, no escritório, onde costumávamos fazer a mesma coisa: conversar enquanto cada uma se ocupava com suas atividades.

Melhor que isso só conversar com Mainha pelo telefone enquanto lavo pratos, mas essa já é uma outra história.

Voltando…

Em dado momento, eis que minha mãe pergunta, em tom de brincadeira:

“Filha, você por acaso viu o meu lápis?”

Para continuar a brincadeira, eu respondo:

“Ah, mãe! A senhora colocou o lápis bem aí no lado direito do notebook”, ao que minha mãe dá uma gargalhada, já que sabe que eu não posso ter visto onde ela o colocou.

Qual não é a sua surpresa quando encontra o lápis exatamente onde eu disse que estava.

“E não é que estava aqui mesmo? Como você soube? Viu pela webcam?”

Por essa eu também não esperava. Acho que a gente se conhece tão bem que até adivinha essas coisas.

Cada vez mais percebo que não importa a distância física, pois sei que no fundo sempre estaremos próximas, uma cuidando da outra.

De 10 de fevereiro.

Amazing Grace

Quando você embarca em uma viagem como essa, são incontáveis as expectativas. Afinal, você irá conhecer lugares e pessoas diferentes, “aprender a se virar sozinho” e viver experiências incríveis. Vem à mente algo como “ver a neve”, patinar no gelo e diversas idas a museus, shows, teatros…

No entanto, eu acho que o que marca mesmo em uma viagem são as situações inesperadas, daquelas que nem o mais experiente dos viajantes poderia prever em seu check-list. Eu já esperava ter várias histórias para contar sobre “estar perdida no meio da cidade” ou sobre as minhas inúmeras “quedas no gelo”, mas nunca imaginei vivenciar metade das experiências por que de fato estou passando.

Hoje, pela primeira vez em minha vida, eu fui a um enterro.

Mas não hás de ficar triste, querido co-piloto. Esse post não tem essa intenção. Acho importante aprendermos com nossas experiências, bem como as compartilharmos. Por isso, decidi escrever também sobre essa situação que, apesar das circunstâncias, não deixa de ser um modo de aprender um pouco mais sobre esse país e sua cultura.

Segue então o meu relato sobre essa experiência.

A mãe de uma colega de trabalho que é bastante próxima faleceu e todos nós fomos ao velório e ao enterro que, no Canadá, costuma acontecer uns 5 dias após o falecimento (não há missa de 7º dia geralmente). Hoje a “escolha” mais comum é a cremação, até porque é a opção de menor custo (e, como vocês verão mais adiante, além disso há certas questões práticas, por assim dizer). As pessoas mais idosas ainda têm um pouco de resistência a esse “método” e há também aspectos religiosos envolvidos. No “caso” em questão houve um “enterro tradicional”.

No velório, o caixão estava fechado. Em todo caso, normalmente o corpo é embalsamado. Havia flores, cartões, fotos e outros objetos que lembravam a pessoa falecida. O culto foi celebrado na própria casa funerária. Devido ao imenso número de religiões no Canadá (tanto cristãs quanto não-cristãs), algumas famílias preferem proceder dessa forma, com uma espécie de “culto ecumênico” em vez do deslocamento para um templo de determinada religião.

O curioso da cerimônia é que o pastor parecia um Rock Star (opinião compartilhada por outras pessoas). Ele tinha “cabelo espetado” (spike hair em inglês), embora estivesse com a tradicional vestimenta preta. Assim que chegou ao altar, o pastor pegou um violão, pendurou-o no pescoço e começou a cantar um dos cânticos do livreto, I come to the garden alone. Não por acaso, Elvis Presley imortalizou essa música (clique para ouvir). A voz do pastor era mesmo muito bonita e contribuiu para o clima pretendido de “celebração da vida” do ente querido em oposição à pura lamentação de sua morte.

É de chamar a atenção como no Canadá há que sempre se considerar a diversidade. O pastor falou algo como “Ainda que Lhe demos nomes diferentes, o Senhor é o mesmo Deus para todos”.

O discurso feito pela minha colega de trabalho em homenagem à sua mãe foi muito tocante. Nele, ela citou a música favorita da mãe, a qual reproduzo trecho da letra:

We’ll meet again [Nós nos encontraremos de novo]
Don’t know where
[Não sei onde]
Don’t know when
[Não sei quando]
But I know
[Mas eu sei]
We’ll meet again
[Nós nos encontraremos de novo]
Some sunny day
[Em algum dia ensolarado]

Clique para ver o resto da letra

Procurei na Internet e vi que, além da versão mais conhecida, de Vera Lynn, a também britânica Julie Andrews gravou a música em um especial de TV. A música tornou-se um marco durante e após a 2ª Guerra Mundial, uma vez que os soldados e as suas famílias não sabiam ao certo se os mesmos retornariam, como muitos de fato não retornaram.

Coincidentemente, a música de encerramento da cerimônia, talvez a música gospel mais famosa no mundo (depois de Oh Happy Day), também foi marcante durante uma guerra. Amazing Grace, também interpretada por Elvis Presley entre tantos outros, foi uma espécie de hino para ambos os lados da Guerra Civil dos EUA, no final do século XVIII, embora tenha sido escrita por um britânico.

O funeral aconteceu em um dia bastante ensolarado (afinal é primavera), embora estivesse muito frio, mais ou menos 15 graus negativos (afinal é Canadá). Ao menos quase toda a neve já havia derretido. Perguntei a uma colega como era o “procedimento” durante o inverno, uma vez que está tudo coberto de neve. Ela explicou que nesses casos o corpo é mantido em uma cripta até que possa ser enterrado (o que pode demorar meses). Como eu disse anteriormente, é mais um motivo para a cremação ser preferência da maioria.

Após o enterro no cemitério, voltamos à funerária para aquela parte em que vários pratos são servidos e as pessoas conversam animadamente (algo meio que difícil de entender, mas que é semelhante em qualquer lugar do mundo).

Enfim. Acredito que tudo que eu descrevi é bem próximo do que acontece no Brasil, mas no Canadá esse rito pode ser realizado de diversas formas, especialmente se você considerar o número de imigrantes orientais, que de um modo geral têm uma visão diferente da cristã ocidental.

Para fechar, deixo o comentário que ouvi quando uma situação cômica ocorreu durante a cerimônia, dessas com alguém um tanto quanto desajeitado ou desastrado, em que ninguém conseguiu segurar o riso:

“One laugh at the strangest moments…” (As pessoas riem nos momentos mais estranhos)

 

 

Até tu, Canadá?

E eis que hoje, depois de me empacotar toda para mais um dia nesse “admirável mundo novo” e seguir por uma trilha coberta de neve já quase no joelho até a parada de ônibus, o que eu descubro?

 

Os ônibus estão em greve!!!

 

“Hã? Como assim? No Canadá também tem greve? O mundo tá perdido mesmo!”

Pois é. Que na França vive tendo greve já não é novidade, mas no Canadá? E olha que eu nem estou na parte francesa…

Também é preciso deixar essa “revolta” a que fui acometida um pouco de lado para esclarecer que greves não são algo comum por aqui. Pelo que me disseram, a última foi há 12 anos, em 1996. Detalhe: Essa durou um mês.

O que é mesmo revoltante é que aqui, em Ottawa, os motoristas de ônibus, apesar de viverem sob o stress característico da profissão, são muito bem pagos e, só para completar, são funcionários públicos, com direito a todos os benefícios e regalias que vêm com o “pacote”.

Foi pedido um aumento de 10% no salário e a contraproposta foi de 7%, o que não é nada mal em tempos de crise. Além disso, foi oferecido um “bônus” de 2.000 dólares canadenses.

E eles ainda têm a audácia de dizer que a greve “não é por dinheiro”.  O que não deixa de ser uma forma de tornar ainda mais nítido que tudo o que eles querem é “mamata”. Por exemplo, eles já se dão ao luxo de ter direito a um número de “sick days” anual (licença por motivo de doença) a que estão isentos de apresentar atestado. Ou seja, eles podem simplesmente ligar dizendo que estão doentes e pronto, nada mais é questionado. E o que eles querem? O “direito” a mais dias de falta sem “atestado médico”, é mole?

A impressão que dá é a de que eles escolheram justamente esse período – com o perdão da palavra – de sacanagem mesmo. Poxa, época de fim de ano, em que todo mundo vai às compras, todos os estudantes estão em exames finais, todo mundo atolado no trabalho por conta do fechamento de ano e, só para um “toque final” com “requintes de crueldade”, quando a sensação térmica está chegando aos 29 graus negativos!!!

Olhe, sei não, viu?

Só digo uma coisa: ainda bem que a minha empresa permite que os funcionários trabalhem de casa todos os dias